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HISTÓRIA DE UMA MULHER EMPODERADA QUE VENCEU LIMITES 



Néia Bastos é um exemplo de mulher empoderada que, ao longo da sua história, venceu os limites do preconceito e tomou as rédeas de seu próprio destino. Atua como professora, historiadora, psicopedagoga, vereadora, mestra em estudos sobre mulheres, mentora, treinadora, palestrante, especialista em coaching sistêmico e escritora. Em seu caminho transdisciplinar, vive a missão de transformar a vida das pessoas, despertando-as para a tomada de consciência e para a importância da construção do conhecimento como instrumento primordial e libertador do ser humano.

É coautora do livro ?7 dias de Mentoria: Aprendendo a construir sua Felicidade?, organizado pela mentora Dirce Alegreti, e da obra ?Encontre sua Marca - Volume II?, organizado pelo coach Leandro Nascimento Cristo. Idealizadora do evento ?Empodere-se?, tem ajudado mulheres a encontrar uma liberdade emocional, geográfica e financeira, definindo objetivos, metas, missão e valores, encorajando-as a buscar um empoderamento pessoal para fazer suas escolhas através de conexão e do propósito. Desenvolve técnicas de produtividade, gestão de tempo, autoconhecimento e inteligência emocional gerando valor às suas principais causas. Foi condecorada com a medalha ?Eu sou top 2021?.

 

Tecendo sonhos

Sonhar é como acordar-se para dentro. Mário Quintana era um poeta que sabia muito bem ouvir as palavras tanto que seu amor por elas lhe permitiu se escutar através do coração. Assim como Mário Quintana, sempre tive o sonho como a ponte para a vida, por isso não foi à toa que sustentei um desejo de menina de levar os estudos como parte de mim.

No contexto escolar, eu era muito tímida e ficava separada dos colegas. Muitas vezes, chorava achando que ninguém gostava de mim, pois não tinha dinheiro para lanchar no intervalo e isso me deixava triste. Os anos foram passando e fui aprendendo a vencer os medos e o preconceito, mas ainda continuava sendo uma aluna inconsistente no desempenho. No ensino médio, fiquei em recuperação e fui parar no Conselho de Classe. Chegava a viver semanas de tormento e de muita angústia até receber o resultado da escola.

A persistência é uma virtude que admiro muito. Sempre busquei desenvolvê-la tendo a consciência de que um estado mental com foco e disciplina é um atalho fundamental para o desenvolvimento da persistência. Quer um exemplo?

Em 2000, aconteceu a virada de chave em minha vida que foi determinante para ressignificar o meu propósito. Fui aprovada em um concurso e tive a chance de ir para a universidade. Havia sido aprovada no mestrado na Universidade Federal da Bahia (UFBA) em sexto lugar.

Aquele paradigma de uma estudante fracassada nos objetivos escolares foi sendo superada à medida que percebia a importância de não desistir do caminho traçado, afinal, ninguém tem o direito de bloquear a capacidade do outro pelo abuso de autoridade. A verdade é que o tempo se encarrega de dar as respostas por meio dos resultados. A educação precisa tocar o coração das pessoas senão o conteúdo desaparece com o tempo ao ser apagado das páginas dos cadernos da vida.

 

Trajetória de fé

Ao longo da minha trajetória, experienciei uma formação religiosa fundamentada na fé. Militante da Pastoral da Juventude e catequista, fui alimentada desde pequena por um desejo coletivo e pelo compromisso social em defesa das pessoas. Morei no convento por um período de quatro anos, tempo em que me dediquei à formação cristã.

 

Foram anos de muito amadurecimento, mudança de mentalidade e de sacrifícios. Morar longe dos familiares e amigos, a criação de novos hábitos e a necessidade de abrir mão de costumes e desejos de uma adolescente de apenas 14 anos foram necessários para o meu aprendizado.

Era uma condição indiscutível fazer os votos de pobreza, obediência e castidade, promessas estas que limitavam a liberdade pessoal. Era uma formação que doutrinava ideias alienantes de ?ser pobre como os pobres?, fundamentadas no texto sagrado da Bíblia que reforçavam crenças limitantes. A castidade também era levada a sério e aprendíamos que a sexualidade era vinculada ao pecado, a algo misterioso que não poderia ser externalizado, ao passo que a obediência era exercitada como uma prática do bem, uma virtude. No entanto, era uma forma sutil de nos tirar o poder para tomar decisões, pois a obediência era quista para atender às normas institucionais.

Em um determinado dia, compreendi que a liberdade é a chave que abre as portas da plenitude. Foi ali que decidi conquistar os meus sonhos e desejos sem medo e sem culpa, saindo de uma rígida estrutura de quatro paredes. Com a consciência e o empoderamento que desenvolvi e cultivo hoje em dia, sei que o poder da mulher ultrapassa as hierarquias patriarcais das igrejas, das famílias e da sociedade.

 

Meu pé esquerdo

Aos três anos de idade, em uma tarde de um sábado, levei uma queda de cima de uma mesa e tive uma paralisia infantil. Apesar de todos os cuidados dos meus pais, ficaram sequelas em meu pé esquerdo que me privaram de viver uma infância com intensidade. Como toda criança gosta de brincar, comigo não era diferente. Precisei vencer limites em casa e dizer não aos cuidados constantes e à superproteção de pessoas que me amavam.

Desde cedo, quebrava padrões, criava resistência e dizia para mim mesma: ?eu posso, eu vou, eu quero e eu consigo?. Em minha trajetória, aprendi que as quedas não seriam os limites da vida. As cascas grossas das feridas me propiciariam a coragem a ponto de me tornar uma pessoa resiliente. Eu seguia dizendo para mim mesma que o meu limite era o infinito, por isso não podia permitir que os outros decidissem o que fosse melhor para mim.

Eu superei as marcas do preconceito, dos apelidos pejorativos que sofria. Muitas pessoas me enxergavam como coitadinha, outras chegavam a ter pena de mim. Ao longo do tempo, fui quebrando paradigmas, ocupando espaços, ganhando autoconfiança para enxergar a vida em uma dimensão maior que o meu próprio pé.

 

EMPODERAR

Quando penso em empoderamento da mulher, penso naquelas que defendem grandes causas, ou seja, reflito sobre aquelas que descobriram o segredo da autenticidade para ser quem realmente são. Empoderar passa pela ação de se tornar poderosa, referência em um campo de conhecimento, ter domínio da própria vida, ser capaz de tomar decisões. Mulheres empoderadas entendem o seu poder libertador, reivindicam ele nos movimentos feministas e nas organizações de mulheres quando estas entendem o seu valor e o traduz na prática.

Dessa forma, o empoderamento é um processo de tomada de consciência pessoal e coletiva que não é inferiorizado por gênero, mas, sim, evoca atitudes que vão contra o machismo imposto pela sociedade, além de contribuir para que aja o direito de participar efetivamente dos mais diversos tipos de debates, tomando decisões que influenciam vidas.

O empoderamento vai além de classes, gênero, raça, orientação sexual, pois todos esses eixos de representação humana podem apresentar sujeitos empoderados ou que estão em processo de autodesenvolvimento. As mulheres necessitam estabelecer as suas convicções e lutar para serem ouvidas em meio a uma sociedade que alimenta constantemente padrões de uma mulher silenciosa e obediente.

?Empoderar? é diferente de ?apoderar?, termo relacionado à ideia de tomar o poder, o domínio ou a posse de algo, alguém ou de determinada situação. Podemos exemplificar quando homens se apoderam das esposas, filhas, namoradas, irmãs, funcionárias. As violências do masculino sobre o feminino ocorrem como consequência dessa cultura milenar de dominação da energia sexual de um sobre o outro.

Ao imaginar onde se aplica o verbo ?apoderar? na história oculta das mulheres, podemos pensar nas tantas relações possessivas, na apropriação dos sentimentos, dos sonhos, desejos e bens materiais e imateriais, na retirada da liberdade, nas prisões construídas em torno dos valores morais. Quando se retira o direito à liberdade de alguém, rouba-se junto os seus sonhos, a sua força, ousadia, fé, essência e alma.